Não tem um dia que passo sem me drogar

 

Ninguém nunca mandou em mim.

E até hoje ninguém manda em mim.

Eu só faço o que eu quero, o que eu sinto vontade.

Não sei por que me trouxeram aqui, não sei que lugar é esse e não sei bem direito o que estou fazendo aqui. Me disseram pra falar, pra contar a minha historia, mas eu não sei não se quero falar, se quero lembrar das coisas que eu já passei. Mas como eles me disseram que eu não posso ir embora agora, vou contar um pouco do que foi a minha vida.

Tem coisas que seria melhor esquecer. E é por isso que eu me drogo até hoje, não da mesma forma que era quando eu tava viva aí na Terra, mas depois que eu parti aprendi a me drogar de outro jeito, usando o corpo de outros viciados como eu.

Não tem um dia que eu passo sem me drogar, pra esquecer todo o inferno que sempre foi a minha vida.

Não tenho mais nada a perder. Não tenho mais corpo, não podem mais me ameaçar dizendo que se eu não parar eu vou morrer, porque eu já morri. Mas nos poucos momentos de lucidez, às vezes me pego a pensar no que será de mim, no que eu me transformei e o que será daqui pra frente.

Não tenho mais corpo mas ainda tenho todas as sensações. É tudo meio confuso pra mim, mesmo depois de todos estes anos. Minha vida é a mesma só que agora eu não preciso mais pagar pra sentir o prazer da droga. É só colar no corpo de outro usuário e sinto todo o prazer, todo o barato da droga.

Se isto está certo? Não sei... Às vezes me questiono sobre quanto tempo eu vou viver assim. Sinto um vazio muito grande dentro de mim, como se minha existência fosse uma coisa inútil, sem sentido. E quando me sinto assim, aí é que eu me drogo mesmo, pra suportar a solidão, pra não ficar pensando, pra não enlouquecer.

Se eu estou cansada? Acho que sim. Na verdade acho que estou assim porque não sei viver de outra forma, porque esta foi a única maneira que encontrei de suportar vivendo. Vivendo sem um corpo de carne, sem ninguém pra conversar. Eu falo com meus antigos amigos, com minha família, mas ninguém responde, ninguém me ouve, ninguém se importa mais comigo. Só estes aí que me trouxeram, que eu não sei bem quem são, mas que estão me chamando pra ir com eles, pra ir pra um lugar onde terei uma nova casa, onde terei a chance de conhecer pessoas, de fazer novos amigos, vou ter a chance estudar (isso eu nunca gostei muito, mas eles me dizem que será bom, que eu aprenderei coisas novas) e que eu vou poder entender melhor o que aconteceu comigo.

Acho que quero ir com eles, estou mesmo muito cansada, exausta de tudo isso. Acho que preciso de um pouco de paz. E também tenho medo de continuar sozinha, de não ter ninguém pra conversar comigo.

Boa noite e até qualquer dia.

 

Cecília (10/10/09)