Quantas vezes estive aqui?

 

Quantas vezes já estive aqui? Não sei. Diversas vezes vim a esta casa, por diversas vezes pensei em me aproximar mas não me sentia preparado para falar ainda. Continuei só na observação, em oração. Os amigos que me trouxeram aqui me incentivaram a falar, a relembrar minhas memórias, a relatar a minha experiência, reviver momentos de quando estive aqui na Terra. Mas isso ainda é muito difícil, mesmo hoje, depois de tanto tempo que eu parti, depois de tantos anos.

Mas hoje resolvi falar. Acho que já esperei muito, que tenho que enfrentar meus medos, que não adianta passar o resto da vida fugindo de mim, fugindo do que eu fui.

Acho que só depois disso é que eu poderei seguir em paz, poderei colocar uma pedra em cima de tudo isso, de todo esse passado de sofrimentos e desventuras e seguir adiante, de cabeça erguida, forte e determinado a vencer.

Bom, vamos lá. Eu nasci e cresci num bairro pobre do Rio. Não chegava a ser uma favela, mas minha casa era muito pobre, muito humilde e por diversas vezes não tínhamos sequer o que comer. Nessas horas, via minha mãe chorar desesperada, sem ter o que dar pra mim e meus oito irmãos. Pai, nunca conheci. Tive um padrasto que morou conosco algum tempo, mas batia na minha mãe, bebia muito e acabou nos deixando. Depois tive outro que não era muito diferente do primeiro.

Crescemos meio largados, cada um por sua própria sorte. Ficávamos na rua, brincando boa parte do tempo. Dessa época até que eu tenho algumas boas lembranças, pois apesar da pobreza, eu tinha uma família, tinha meus irmãos. Brincava o dia todo, às vezes algum vizinho nos dava comida, e também tinha a escola, onde a hora da merenda era a hora mais esperada.

Freqüentei a escola por um tempo, mas foi lá que eu comecei a ver as diferenças que existiam entre as crianças e a questionar por que as coisas lá em casa eram tão difíceis. E também foi na escola que eu conheci a droga. Uns amigos me ofereceram de graça, pra experimentar, só um pouquinho. Mas aí vocês já sabem, esse pouquinho cada vez se tornou maior até que eu estava completamente viciado e endividado.

Comecei a praticar pequenos furtos para manter o meu vício. Mas eu não conseguia parar. Alguns dos meus irmãos também se envolveram com drogas, eu já não sabia mais quem eu era, já não tinha mais idéia do que era família, do que era um lar.

Eu não ouvia, eu não respeitava minha mãe, estava cego pela droga.

E isso nunca acaba bem.

Acabei sendo preso, passei anos na prisão, sofri muito, passei por momentos horríveis que nem vale a pena relatar e acabei morrendo, viciado, sozinho e totalmente enlouquecido.

Mas o inferno não acabou depois que eu morri. Demorou pra eu entender o que tinha acontecido, a única coisa que eu sabia era que eu podia sair da prisão, mas eu não conseguia me lembrar por que eu estava na rua. Achava que tinha conseguido fugir. E acabei indo atrás dos traficantes, pois precisava de mais drogas. E qual não foi a minha surpresa ao encontrar antigos companheiros que já tinham morrido e só então entendi o que tinha acontecido comigo.

Passei ainda um longo tempo com eles, continuava a me drogar, ia atrás de outros usuários de drogas.

Mas o mal não dura para sempre e o sofrimento um dia tem que acabar. E um dia eu fui ajudado, acolhido em um lar de repouso onde pude me tratar, onde pude entender o que tinha acontecido comigo e onde vivo hoje, junto com milhares de jovens que se iludiram com as drogas, que jogaram suas vidas fora.

Obrigado por me ouvir.

Realmente falar fez com que eu me sentisse melhor.

 

Um abraço, Edson (14/11/09)