Sofri muito com o preconceito e com a discriminação

 

Negro...

Pobre...

Nascido e criado numa favela.

Trazendo atrás de si toda uma história de décadas de dominação, de exploração desumana, de escravidão, de servidão.

Trazendo atrás de si toda uma vida de preconceitos, de discriminação, de humilhações, de falta de oportunidades.

Mas negra é apenas a cor da pele.

Por dentro somos todos iguais a qualquer ser humano, de carne e osso, que sente, que chora, que luta, que tem coração, que tem alma, que tem sentimentos.

Sofri muito com o preconceito e com a discriminação. Por mais que eu me esforçasse para conseguir um emprego digno, sei que perdi muitas oportunidades por causa da minha cor.

Isso me revoltava, dava verdadeiro ódio dentro de mim. Desde a época da escola eu era tratado de forma diferente, não por todas as pessoas, sempre existem pessoas de bom coração que conseguem enxergar através das aparências e dos rótulos sociais, mas a maioria dos meus colegas de classe e pasmem, até mesmo alguns professores me tratavam de forma diferente.

Minha mãe trabalhava para uma família rica, que sempre a tratou bem. E eles resolveram ajudar com os meus estudos e pagavam a maior parte da minha mensalidade na mesma escola onde os filhos deles estudavam. Com sacrifício, mamãe pagava a outra parte, na esperança de que eu fosse alguém no futuro. Mas passei a conviver com gente de um nível social muito diferente do que eu vivia na favela.

Os filhos dos patrões de minha mãe eram dos poucos amigos que eu tinha. Felizmente, apesar da distância que nos separava pelo nível social, éramos amigos verdadeiros, brincávamos, estudávamos.

Mas o jeito como aqueles outros meninos na escola me tratavam me deixava revoltado e aquele ódio foi se acumulando dentro do meu peito até se transformar num plano arquitetado durante anos de humilhações, de desprezo. Resolvi procurar alguns traficantes da favela onde eu morava e me oferecer para traficar para dentro do colégio onde eu estudava, para aqueles meninos riquinhos e metidos, que se achavam melhor do que eu. Eu facilitaria o acesso daqueles petulantes, arrogantes e orgulhosos às drogas, essa seria a minha vingança, a minha forma de vê-los caídos, reduzidos a pó, reduzidos a nada.

Eu faria com que eles sofressem muito do que eu sofri, faria com que eles fossem vistos com desprezo por aqueles que eram seus amigos, por aqueles que os admiravam. Eu faria com que eles chegassem ao fundo do poço, faria com que eles tentassem mudar seu destino, como eu tentei mudar o meu, sem conseguir.

Só que vingança não leva a nada. E um dia o feitiço virou contra o feiticeiro. Resolvi experimentar só um pouquinho, para relaxar, para suportar as tensões que permeavam os meus dias. Eu achava que eu tinha auto controle sobre mim, que eu era auto suficiente para cuidar de mim mesmo e que eu não seria idiota de me viciar.

Mas todos que já tiveram contato com drogas sabem que não é bem assim. Que quando menos se percebe você está completamente dependente e viciado.

Eu queria que eles sofressem mas quem acabou sofrendo e se dando mal fui eu. E como fiz minha mãezinha sofrer... Como eu a decepcionei...

Mas eu estava cego de ódio, de revolta dentro de mim e segui pelo caminho do mal, da vingança e isso não podia acabar bem.

Hoje entendo tudo isso, entendo que agi mal, que vingança não leva a nada, que o único caminho a ser seguido é o caminho do bem, da luz e dos ensinamentos do Cristo.

Se as coisas na minha vida tomaram o rumo que tomaram, foi por causa do meu orgulho e da minha teimosia em aceitar minha condição. No fundo, eu também era preconceituoso, eu me sentia diferente e não soube aproveitar as oportunidades que recebi e valorizar as pessoas boas que foram colocadas em meu caminho. Se eu pensar na condição em que nasci, minha vida poderia ter sido bem pior, mas eu preferi me revoltar contra a vida e segui o caminho errado.

Hoje me arrependo das coisas que fiz e das escolhas que tomei. Mas sei que isso é passado e deve ser deixado pra trás. Daqui pra frente quero seguir rdtudando e me preparando para uma nova encarnação onde espero não errar de novo.

 

Marcelinho (21/11/09)