Ah, que saudade...

            Hoje, o sentimento que trago vivo no peito é uma profunda tristeza e a saudade... ah, a saudade que dói apertada por ter deixado para trás tantos sonhos, tanta vida e aqueles que amo e que cedo deixei desamparados. Na realidade, desamparei a minha família ainda quando estava encarnado. Aquela que eu tive por companheira durante a minha curta jornada na Terra ficou sozinha com os meus dois filhos.

Ah, que saudade, Gláucia, Matheus e Marcelo... Como eu gostaria de poder voltar atrás, como eu queria poder não ter feito as coisas que fiz, como eu queria não ter feito vocês sofrerem. Sei que por muito tempo eu não pensei em vocês, eu abandonei moralmente e até financeiramente todos vocês. Tudo o que eu ganhava ia para compra de entorpecentes que eu achava que aliviavam o vazio que eu trazia dentro de mim, dentro do meu coração.

Não soube entender nem valorizar a minha esposa, os meus filhos, o meu trabalho e acima de tudo a vida que Deus me deu.

Destruí a minha saúde, destruí todo e qualquer vínculo afetivo com os meus filhos, que eu não vi nascer, que eu não vi crescer e que me viam como um estranho, que às vezes voltava embriagado e drogado para casa, mas que às vezes desaparecia por um tempo para depois retornar.

Deus, quando a humanidade se livrará desta desgraça, desta chaga que fere tantas almas que destrói tantas vidas, tantas famílias, tantos sonhos?... Que mata e fere mais do que armas de fogo, do que as guerras. Viver no mundo das drogas é viver numa guerra interior, numa batalha consigo mesmo, numa constante luta entre largar tudo e recuperar a sua identidade, pois o drogado deixa de saber até mesmo quem ele é, e o que ele está fazendo aqui, pois deixa de ter um propósito de vida, deixa de traçar planos para o futuro.

Quando Senhor? Quando estaremos livres deste mal terrível que assola os dias da humanidade?

Ergo meu pensamento a Deus e convido vocês a fazerem o mesmo, a nos unirmos em uma oração de súplica para que a paz reine sobre a Terra, para que a paz reine soberana nos corações e sobre os homens.

Peço a Deus que ilumine também os governantes do mundo todo, os homens que têm o poder de tirar as crianças da rua e de impedir que aqueles que ainda têm um lar caiam nesta vida tão triste. É preciso conscientização, é preciso união e priorização da educação como forma de afastar as crianças e os jovens desta estrada tão triste que eu mesmo trilhei.

Ainda estou em um Centro de Recuperação pois meu perispírito ainda trás muitas marcas do que as drogas fizeram com o meu organismo, com o meu corpo físico, mas já estou bem melhor. E acima de tudo estou muito lúcido e consciente de meus atos. Atos dos quais me arrependo profundamente e que se eu pudesse gostaria de voltar no tempo e jamais ter seguido este caminho.

Quanta vida eu ainda tinha pela frente quando deixei a Terra, minha família.... e principalmente meus filhos.

Acho que pela proximidade do “Dia dos Pais” estou emotivo e não consigo deixar de derramar lágrimas de tristeza, de arrependimento e de perdão por tudo que fiz meus filhos sofrerem.

Espero que eles consigam entender que o pai deles estava doente, iludido por promessas de uma vida fácil, de um mundo onde não havia tristeza, onde não havia problemas... que ilusão.

Graças a Deus a Gláucia soube ampará-los e eles hoje estão crescendo fortes, saudáveis, estudiosos e longe das drogas.

Orem por mim, orem por eles.

Sei que ainda teremos muito tempo antes de podermos nos reencontrar, mas saber que a vida continua, que esta saudade que sinto não será eterna, é um grande alívio para o meu coração oprimido e ao mesmo tempo agradecido a Deus por eu saber que meus filhos não estão seguindo o mesmo caminho que segui.

Obrigado pela oportunidade de eu poder abrir o meu coração.

Obrigado pelas orações que vocês têm endereçado a mim a aos meus companheiros.

Obrigado a Deus pela dádiva da imortalidade da alma.

 

Um abraço, Felipe (11/08/07)