A vida nas ruas é uma ilusão

 

A vida nas ruas é uma ilusão. Uma falsa ilusão de liberdade.

Fui viver nas ruas porque queria ser livre, porque não queria dar satisfação para minha mãe, para minha família.

No começo foi muito legal. Eu passava o dia todo sem fazer nada, sem ter obrigações. Passava o dia jogando conversa fora, me divertindo com outros meninos e meninas que também passavam o dia na rua, pedindo nos faróis, sentados pelos bancos das praças, conversando, vadiando. Mas também foi nas ruas que eu conheci o crack, a heroína, a maconha, a cocaína... Também cheirei cola, bebia, consumia tudo que aparecesse na minha frente. Foram esses amigos de rua que me ofereceram, que me ensinaram a consumir, que me incitavam a pedir e até mesmo a roubar para manter o nosso vício. O que o grupo decidia, todos tinham que fazer e foi assim que me envolvi em diversos crimes.

Quanta coisa errada eu fiz!

Nunca mais vi a minha família, nunca mais voltei para casa.

Quando eu percebi no que eu tinha me envolvido, percebi também que não tinha mais volta. Até tentei deixar de me drogar, mas a dependência era tão grande, o grau de envolvimento e dependência do grupo também era tamanho, que eles não me deixavam ir embora, afinal estávamos todos no mesmo barco.

A vida na rua é muito difícil. Você pode até achar que tem liberdade, que pode estar em qualquer lugar que quiser, que não tem hora nem obrigação para fazer as coisas, mas isso é pura ilusão. A vida nas ruas não é uma vida livre não, pois somos prisioneiros de nós mesmos, pois não temos direito a nada, nem direito à vida, pois o que eu passei nas ruas não pode ser chamado de vida.

Perdi minha identidade, minha dignidade, meu amor próprio, o amor de minha família, que apesar de ser uma família pobre, era uma família trabalhadora, honesta, mas eu nunca quis ouvir os conselhos de minha mãe e achava que ela estava “pegando no meu pé” quando me dizia pra estudar, quando me dizia pra ir à escola, pra ser alguém na vida, pra um dia ter um emprego, pra formar uma família, mas eu era muito teimoso, muito orgulhoso e me julgava auto-suficiente pra tomar as minhas decisões, pra seguir o rumo que eu quisesse e foi isso que eu fiz. E me dei muito mal... Me arrependi muito e me arrependo até hoje por não ter ouvido a minha mãe, por ter abandonado o meu lar, que por mais simples que fosse era meu lar, era um lugar onde eu estava seguro, onde eu era amado, ainda que naquela época eu não tivesse condições de entender isso.

O meu orgulho e a minha teimosia aliados à minha falta de fé em Deus e de conhecimento das coisas da vida, me impediram de ter uma vida melhor, de ter um futuro feliz, ou melhor, me impediram de ter um futuro, pois desencarnei muito cedo, antes de completar 18 anos.

A “Estação do Pouso para o Repouso” hoje é o meu lar, o meu porto seguro, onde fui acolhido, tratado com muito amor e respeito por amigos bondosos que hoje considero meus verdadeiros irmãos.

Não valorizei os meus irmãos que eu tive quando encarnado na minha ultima existência, não valorizei a minha família. E hoje tenho amigos que são a minha família no plano espiritual.

Peço perdão a Deus e à minha mãe que eu sei que fiz sofrer. Peço ajuda do Pai Criador para que eu nunca mais me aproxime das drogas, para que eu não desperdice a oportunidade da vida.

A vida é um presente que recebemos de Deus e devemos valorizá-la. A quantidade de jovens que assim como eu se envolveram com esta desgraça e que hoje aguardam uma nova chance para reencarnar é enorme. Vocês não imaginam como esperamos por esta nova oportunidade e como isso nos dá medo, nos dá a sensação de insegurança por não sabermos se seremos fortes o bastante para não repetirmos os mesmos erros.

Que o Pai da Vida nos dê amparo e forças nesta nova jornada.

 

Um abraço,

Pedro Henrique (29/03/08)