Nasci pobre

 

Nasci pobre, numa favela em São Paulo. Passei fome, muitas necessidades, privações e humilhações em minha infância e início da adolescência.

Não entendia por que algumas pessoas nasciam bonitas, ricas, tinham tudo na vida e eu e minha família estávamos naquela situação deplorável, passando por tantos momentos difíceis.

Não entendia e não vim a entender durante todo o período em que estive encarnado. Só vim compreender o porquê destas desigualdades, o porquê das coisas que passamos, das provas que vivenciamos, depois do meu desencarne. Mas não pensem que foi logo depois de desencarnar.

Muito tempo se passou, muito continuei sofrendo até que eu despertasse para a vida, até que eu tivesse consciência das minhas atitudes, até que eu me arrependesse das coisas erradas que fiz.

Hoje compreendo que Deus é nosso Pai Criador e que tudo o que sofremos, que tudo o que passamos, de alguma forma foi atraído por nós mesmos para a nossa existência. Que Deus não castiga, que Deus não é mal e não se zanga conosco, mas nós mesmos é que nos punimos com a nossa própria consciência, que não nos deixa em paz, que não nos deixa seguir adiante se não nos redimirmos dos nossos erros, das nossas quedas.

Errei muito, fiz muita gente sofrer, fiz muita coisa errada nas minhas ultimas encarnações. Pois é, como vim a saber depois, não foi só uma vez que estive envolvido com o vício, com o crime. Antes da minha última encarnação, estive em processo de recuperação, estive doente pelo efeito dos entorpecentes que consumi quando encarnado, me arrependi, chorei, me tratei e fui preparado para uma nova encarnação.

Da primeira vez, tive tudo na vida: pais que me deram amor, carinho, instrução, bens materiais, viagens, livros, carros, tudo que um garoto poderia querer ter. Mas isso não foi suficiente para me manter afastado das drogas. Apesar de tudo que eu tinha, me sentia vazio, infeliz, achava que faltava algo em minha vida e foi aí que eu me envolvi com as drogas. Desencarnei cedo, sofri bastante, mas Deus foi misericordioso comigo e me deu uma nova chance.

Se da outra vez eu tinha caído, mesmo tendo tudo na vida, nesta nova existência eu experimentaria uma nova realidade, com o amor dos meus pais, mas conquistando as coisas materiais com o esforço do meu trabalho. As coisas materiais não viriam tão fácil e eu deveria conquistar tudo por mim mesmo, deveria preencher o vazio que eu dizia sentir em minha outra existência com trabalho honesto, com estudo.

Mas mais uma vez eu fui fraco e me deixei levar por companhias erradas, pela minha revolta contra a vida e contra Deus, pela minha inveja pelo que as outras pessoas tinham e me envolvi novamente com as drogas.

Como fui fraco, como fui tolo, Senhor!

Como me arrependo do que fiz, como desperdicei mais uma oportunidade que eu havia recebido do nosso Pai Criador, como desperdicei mais uma chance de melhorar, de me manter no caminho correto, no caminho do bem.

Quanto tempo desperdiçado, quantas lágrimas poderiam ter sido evitadas se eu não tivesse me envolvido novamente com o vício, se eu tivesse me resignado com a Providência Divina, se eu tivesse ouvido os conselhos de minha mãe e não tivesse me revoltado com a minha condição.

Mas lamentos não me levarão a lugar algum, lamentos não farão o tempo voltar.

Hoje me encontro ainda em tratamento, junto aos amigos da “Estação do Pouso para o Repouso”, que têm me dado forças, amor e muitos ensinamentos.

Peço forças a Deus, peço forças para não fracassar novamente. Peço forças para que na minha próxima existência eu consiga superar esta etapa dolorosa pela qual passei, para que eu possa trabalhar na prevenção e na educação de crianças que estão em situação de risco, para que elas não venham a sofrer o que eu sofri,

Ainda tenho muito a aprender, ainda preciso me fortalecer antes de estar preparado para uma nova jornada.

No meu íntimo, tenho medo. Mas também tenho muita esperança.

Deus tem sido muito bom comigo. Sei que Ele já me perdoou. Sei que Ele me ama e nunca me abandonou.

Quem precisa me perdoar sou eu mesmo, pela minha fraqueza, pela minha falta de fé, pela minha pequenez.

 

Graças a Deus.

Paulo Henrique (19/04/08)