NUNCA OUVI FALAR DE DEUS


Não entendo por que a vida sempre foi tão difícil, por que sempre foi tão cruel comigo.

Dificuldades, pobreza, sofrimentos, enfrentei de tudo quando estive aí na Terra.

Cresci em meio a bandidos, traficantes, violência, falta de estudo, falta de afeto, falta de comida, falta de compreensão, falta de respeito e de dignidade.

Cresci sem saber a diferença entre o que era certo e o que era errado, sobre a diferença entre o bem e o mal, sem saber o que eu queria ser quando crescesse, sem perspectivas de vida, sem esperança.

Nunca ouvi falar de Deus, nunca soube quem Ele realmente era e o que significava ser filho de Deus.

Não havia nada que eu temesse, tão acostumada estava com tanta maldade e injustiça, com tanta violência e falta de valores morais.

A vida vale muito pouco, para quem não tem nada a perder.

Pelo menos era o que eu pensava na época.

Pouco me importava se eu acordaria viva no dia seguinte, se eu teria futuro, o que eu iria fazer dali para a frente. Nada disso me importava, nem o que iriam pensar de mim, o que a minha família e meus vizinhos falariam, pois o que eu queria mesmo era me divertir, curtir as sensações do momento, aproveitar o barato que a droga me dava, sem me preocupar com o depois.

Mas depois de um tempo, já não era bem assim. Quando eu ficava sem a droga, por falta de dinheiro, quando o efeito passava, meu sofrimento era tremendo.

Minha vida já não tinha o menor sentido, eu não agüentava mais ser quem eu era, quem eu havia me tornado.

Nunca tive muitas perspectivas, muitos objetivos de vida mesmo, vivia em função da droga e de me divertir, mas uma vida assim não dura muito. Uma vida assim é uma vida sem razão, sem sentido. Uma vida vazia...

E este vazio se tornou tão insuportável que um dia resolvi que eu não queria mais viver, que eu não tinha mais motivos para continuar levando a vida adiante, pois nada mais me prendia a este mundo. Ninguém me amava, ninguém se importava comigo, eu não tinha um trabalho, vivia vagabundeando e me vendendo para conseguir drogas, mas decidi que isso tinha que terminar e dei um fim à minha vida. Misturei tudo o que vocês podem imaginar, em doses altíssimas e meu coração não suportou. E eu consegui o que eu tanto quis. Consegui em termos: pus um fim à minha vida material que na época eu achava que era tudo. Mas que decepção e que desespero quando vi que ao deixar o meu corpo de carne, inerte, sem vida, eu continuava sentindo dor, uma dor tremenda e um desespero tamanho pois não havia nada nem ninguém que me ouvisse e me socorresse, que fizesse o meu sofrimento cessar.

Gritei, chorei, clamei por socorro, maldisse a Deus, aquele mesmo Deus que eu nunca acreditei existir e que agora me castigava, me prendendo a este sofrimento e não respeitando o meu desejo de acabar com tudo, de terminar com a minha dor, com a minha vida.

Não sei dizer por quanto tempo vaguei, por quanto tempo senti todo tipo de dor que vocês podem imaginar. Já estava quase me conformando com tanto sofrimento, achando que eu realmente merecia arder no fogo do inferno, quando lembrei da minha mãezinha, que quando eu era pequena rezava comigo ao pé da minha cama, mas com quem eu nunca me importei. Lembrei-me do carinho dela comigo, que desapareceu ao longo dos anos, talvez pela minha própria rebeldia, ele que eu nunca soube entender... E chorei. Chorei lembrando do seu colo, do seu cheiro e por incrível que pareça, resolvi rezar.

Desafiei a Deus, que se Ele realmente existisse, que tivesse pena de mim, que tivesse compaixão, pois eu não conseguia mais viver desta forma, eu não agüentava mais tanta dor, tanto sofrimento.

E uma luz suave surgiu diante de mim, junto com amigos bons que me estenderam a mão, não se importando com quem eu era nem com o que eu tinha feito. Eles simplesmente me deram a mão e me levaram para um lugar bom, de paz, onde venho me tratando, recuperando meu corpo espiritual e minha mente, onde sou tratada com respeito, com dignidade e com muito amor, onde tenho estudado e aprendido que a vida é o bem mais precioso que recebemos do nosso Criador e que devemos cuidar dele com carinho, com cuidado, para que possamos progredir.

Sou muito grata a estes amigos que muito têm me ajudado e a Deus que me perdoou e está me dando uma nova chance de ser feliz.

Fiquem com Deus.



Adriana (04/20/08)