Pela primeira vez...

 

É a primeira vez que venho aqui e me senti muito bem e gostei. Mas os estudos de vocês me fizeram refletir e pensar na minha situação. Será que quando eu voltar para a Terra, eu terei problemas, alguma deficiência decorrente do mau uso que fiz do meu corpo, decorrente dos maus tratos causados pelo exagero do uso de drogas? Confesso que fiquei um pouco preocupado e pensativo. E também curioso para saber mais sobre as Leis Divinas, sobre a ordem que rege o Universo.

Quando estive aí na Terra, tive acesso à cultura, à educação, tive uma religião, uma família, amigos, estive no meio de pessoas muito cultas e inteligentes, mas mesmo com tudo isso não consegui me manter afastado dos entorpecentes, que eu tinha pleno conhecimento do que causavam e de como atuavam sobre o cérebro e sobre o restante do nosso organismo.

Mas nada disso foi suficiente para me livrar do vício, para que eu não me envolvesse com esta praga que tomou conta da Terra, desta ferida, que me dói até hoje.

Eu sabia de tudo, até porque pesquisei muito sobre o assunto, inclusive foi tema de estudo de minha tese de doutorado. Mas não sei explicar em que momento eu fraquejei e me tornei vulnerável às drogas.

No meu trabalho de pesquisa, falei com diversos viciados e ex-viciados que me contavam as suas experiências, as suas desgraças, o efeito das drogas sobre seus corpos, a dificuldade de parar, de conseguir se manter lúcidos, afastados das drogas.

Mas eu, em minha superioridade intelectual, tornei-me cego ao perigo e, como me achava pleno de capacidade e autocontrole sobre a minha mente e o meu organismo, achei que eu poderia experimentar, só para sentir o efeito que tantas vezes me foi descrito, no meu próprio organismo. Mas que ilusão e que desespero quando eu senti na pele o que as drogas causam a um ser humano e percebi que eu não podia mais ficar sem aquilo.

Fui muito arrogante e ingênuo ao acreditar que comigo seria diferente, pois eu era uma pessoa estudada, que sabia exatamente como as drogas atuavam e, que por este motivo, eu tinha o controle da situação, eu sabia a quantidade segura para não me viciar e parar quando eu quisesse.

Mas a verdade é outra. Não existe quantidade segura, não existem autocontrole e controle da situação quando o assunto é droga. Cada organismo é um e você só vai saber o seu limite quando já o tiver ultrapassado e cruzado a perigosa barreira da dependência química e psicológica. Psicológica também, pois compromete toda a sua capacidade de pensar, de raciocinar com clareza e lucidez.

E eu, que sempre me orgulhei de todos os meus títulos acadêmicos e profissionais, que sempre tinha sido um profissional respeitado e inteligente, transformei-me num completo idiota, numa sombra que não lembrava nem de longe quem eu tinha sido um dia.

Isto ate hoje me entristece. Como eu, que sempre me julguei inteligente, pude ser tão estúpido em me envolver com drogas e comprometer desta forma a minha saúde, a minha carreira, a minha existência?

Sei que não adianta ficar lamentando o que passou, mas também sei que isto deve servir de lição para que eu não cometa os mesmo erros novamente quando eu receber uma nova chance para tentar recomeçar de onde parei, de onde estacionei a minha vida na escala do progresso.

Tenho estudado bastante na Espiritualidade e sempre ouço dizerem que o espírito não retrograda, mas a impressão que eu tenho é de que eu voltei muitos degraus na escala evolutiva na minha última existência, ao dar aquele passo em falso e me envolver com o que eu não devia.

Quando ouvi vocês lendo aquela pergunta que fala dos homens inteligentes, mas inclinados ao vício, parecia que eu me vi, naqueles tempos em que vivia mergulhado em livros, cadernos, anotações, mas em que o meu lado moral era muito pouco evoluído, em que a vaidade e o orgulho, o ar de superioridade permeavam o meu caráter.

Tenho muito a aprender, muito a estudar, não aquelas coisas que eu estudava na Terra, mas estudos que me levem à reflexão e à melhoria do meu eu interior como ser humano em evolução e que espera por uma nova chance.

Peço perdão a Deus por todos os meus erros e espero poder receber as mesmas oportunidades que perdi, que joguei fora em minha última existência. Sinto um nó na garganta, uma vontade de chorar, mas sei que tenho que ser forte, que sou capaz e que existem muitos espíritos protetores que me auxiliarão nesta minha nova jornada.

 

Um abraço,

Amadeu (21/03/09)