Não queria ter morrido...

 

        Eu não queria ter morrido. Eu era tão jovem... Sinto muita saudade da minha casa, da minha família, das minhas coisas, dos meus amigos, da vida que eu levava antes de me envolver com as drogas.

Sinto saudade da minha infância, das brincadeiras inocentes, dos passeios e viagens que fazíamos nos finais de semana e nas férias. Sinto saudade do cheiro de mato, do contato com a terra, do perfume das flores, do céu azul, do calor do sol, das coisas simples.

Sinto saudade da minha mãe. Sinto saudade dos meus irmãos. Sinto saudade de tudo que eu fui um dia, das coisas boas que eu tive dentro de mim.

Nasci e cresci numa cidade do interior. Filho de uma família abastada, dona de muitas terras, fazendas, comércios, que teve uma infância simples e que apesar de confortável, prezava pelas coisas da terra, da natureza.

Mas eu cresci, estudei e quis continuar meus estudos na cidade grande. E vim para a selva de pedra.

No começo, eu pouco saia, quase não tinha amigos, dedicava quase todo o meu tempo aos estudos. Mas no meio em que eu estudava e trabalhava, na residência médica, tive contato com substâncias utilizadas para sedar pacientes, mas que são verdadeiras drogas, que se utilizadas em quantidade e circunstâncias incorretas, viciam sim.

A pressão que eu tinha nos estudos era muito grande, meu pai me cobrava por um desempenho exemplar nas notas. Noites sem dormir, estudando até altas horas e eu comecei também a experimentar o que os meus colegas diziam que era bom para ficar acordado mais tempo, para ficar ligado e conseguir estudar até tarde.

E quando em me sentia muito estressado, saia para as baladas universitárias, para me distrair, para descontrair e onde vocês sabem que rola de tudo.

Comecei a ficar dependente dos entorpecentes. Achava que sem eles eu não conseguia me concentrar nos estudos, mas depois de um tempo eu não tinha era mais condições de exercer a medicina.

Eu era uma verdadeira ameaça aos pobres dos pacientes que passavam pelas minhas mãos no Hospital Universitário onde eu trabalhava.

As drogas acabam com sua capacidade psíquica, com sua capacidade de raciocínio lógico, com sua memória, com sua lucidez.

Eu estraguei tudo. Eu joguei fora todas as oportunidades que Deus me deu de ser feliz, de prosperar, de progredir.

Como médico, eu poderia ter salvado muitas vidas, mas minha carreira se encerrou, condenada pela drogas, antes mesmo de se iniciar.

E nem a minha própria vida eu fui capaz de salvar. Muito pelo contrário, joguei fora todas as chances que tive de fazer o bem, de me tornar uma pessoa que pudesse contribuir para melhorar o planeta.

Hoje tenho o coração mais leve, a alma mais tranqüila, mas profundamente arrependido pelo que fiz comigo e pelas coisas que deixei de fazer.

A saudade de tudo que perdi também me dói.

Mas hoje compreendo o que me levou a isso e me preparo com muito estudo, vigilância interior e oração no lar que me acolheu e me salvou, para uma nova encarnação.

Peço a Deus que Ele me dê forças para não fracassar em minha nova oportunidade e que eu possa trabalhar para salvar vidas e manter todos os que eu puder afastados das drogas.

 

Paulo (18/04/09)