A Dívida...

 

Já era noite alta. E eu não conseguia pegar no sono. Virava de um lado para o outro na cama, mas a falta das drogas não me deixava dormir.

Meus pais já sabiam de tudo. Fazia um tempo que eles tinham descoberto que eu era um viciado e fizeram de tudo para tentar me afastar das ruas e das drogas.

Meu pai chegou a me trancar no quarto e a esconder as minhas chaves, tanto de casa quanto do meu carro.

Mas naquela noite isso não foi o suficiente para me prender. Já fazia alguns dias que eu não saia de casa, que eu passava a maior parte do tempo no quarto, assistindo TV ou dormindo. Eu voltara recentemente de uma clínica e meus pais, e até mesmo eu, me julgavam curado. Mas naquela noite, eu estava particularmente inquieto.

A velha vontade, o velho vício voltava a me atormentar, a me torturar o pensamento e o meu corpo. Tentei pensar em outras coisas, tentei dormir, mas nada fazia aquela vontade passar.

Como eu passei um bom tempo tranqüilo, dentro de casa, meus pais acabaram me deixando sair do quarto e afrouxando a vigilância, pelo menos dentro de casa.

E naquela noite eu me levantei quando todos já estavam dormindo e tentei achar a chave do meu carro. Mas não encontrei. Talvez estivesse no quarto dos meus pais assim como as chaves dos outros carros da casa. Tentei encontrar algum dinheiro e nada.

De que me adiantaria sair atrás de drogas se eu não tinha dinheiro? Mas eu estava tão inquieto que resolvi sair assim mesmo.

Uma vez na rua, o ar fresco da noite inicialmente pareceu me acalmar, mas a sensação de liberdade me fez lembrar dos velhos tempos, dos antigos lugares freqüentados e uma loucura passou pela minha cabeça: subir o morro a pé, mesmo sem dinheiro e ir atrás dos antigos fornecedores de drogas.

Que loucura a minha. Entrar naquele morro, depois de tanto tempo, depois de tanto sofrimento para me livrar das drogas, depois de meses de tratamento, meses de luta contra mim mesmo.

Mas naquela noite fui fraco. Fraco e inocente por acreditar que conseguiria drogas sem dinheiro.

E o pior é que a memória da gente fica fraca quando se é usuário de droga. E o sofrimento do tratamento, os remédios, o tempo fazem com que a gente se esqueça de certas coisas, de algumas coisas importantes como estar em dívida com os traficantes.

Quando bati naquela porta eles se mostraram surpresos em me ver e quiseram saber se eu finalmente tinha resolvido quitar a minha dívida, que não era pequena e que já estava pendente há muito tempo.

Nem preciso dizer que fui forçado a entrar e que apanhei muito quando eles descobriram que eu estava de bolsos vazios. De nada adiantaram as minhas súplicas, dizendo que eu iria pedir dinheiro aos meus pais, mas eles não acreditaram em mim, pois da ultima vez que eu disse isso, eu sumi e eles ficaram no prejuízo. Apanhei tanto que acabei morrendo, sem conseguir saciar a minha vontade de drogas, que voltava a me atormentar e sem conseguir voltar para casa e avisar aos meus pais o que tinha acontecido.

Sofri muito, como me arrependi pelo meu ato impensado, como me arrependi por ter sido fraco naquela noite e colocado meses de tratamento a perder, por ter deixado a vida tão cedo, por ter perdido a minha família, por ter perdido a minha vida e a chance que eu tinha de voltar a ser feliz.

Na época, entrei em desespero, queria me vingar daqueles que me mataram, queria voltar a consumir drogas. Juntei-me a espíritos que me levaram para o caminho do mal, que me ajudaram a fazer coisas das quais hoje me envergonho e me arrependo.

Mas a misericórdia de Deus é infinita e o socorro, por mais tardio que seja, nunca falta a quem quer ser ajudado e a quem quer se arrepender sinceramente de seus atos covardes e irresponsáveis.

Hoje estou em processo de recuperação, ajudando como posso aqueles que acabaram de chegar e que precisam de ajuda, como eu um dia precisei, estendendo o ombro amigo, como um dia estenderam para mim. Tenho muita gratidão ao Criador pelo perdão que recebi e pela nova família que encontrei neste lar que me acolheu. Agradeço pelas mãos abnegadas que me acolheram com tanto amor, nunca me recriminaram, que nunca apontaram os meus erros. Ate porque quando a consciência desperta é como se tirassem uma venda dos nossos olhos e tudo parece tão claro, o peso das nossas faltas, dos nossos erros, as conseqüências da nossa irresponsabilidade, tudo é tão nítido à nossa frente, que não é preciso que ninguém nos fale ou nos condene, pois a nossa própria consciência nos acusa, se envergonha e se arrepende de tudo o que fez.

            Hoje sei que perdi oportunidade preciosa quando estive na Terra. Não sei quanto tempo hei de esperar para voltar. Mas a esperança aquece o meu coração por saber que o Pai Criador, não importa quanto tempo demore, me dará uma nova chance, ainda que eu muito tenha errado.

A todos que estiverem sofrendo, a todos que já perderam a esperança, lembrem-se de que existe um Ser Superior a tudo, cujo amor e bondade são infinitos e que não nos abandona jamais.

 

Daniel (15/08/09)